Minha transição capilar

08:54


   Olá meninx, tudo bem?!

   Hoje o papo é sobre a transição capilar. Mais especificamente: a minha.

  Vemos uma onda de transição nas redes onde meninas estão optando pelo cabelo natural, no caso, o cabelo cacheado. Desde sempre, ao menos desde que eu me lembre, o cabelo "enroladinho" sempre foi motivo de crítica, ora porque o cabelo é "muito bagunçado", ora porque o cabelo é "ruim" e/ou "difícil de pentear". Bom, nós que nascemos com o cabelo cacheado ou crespo sabemos bem que as críticas e comentários "inofensivos" ou "intencionais", familiares ou não, podem ser bastante cruéis.

   O que acontece é que durante anos a fio a industria de cosméticos, moda e beleza foca no cabelo liso, sem frizz, controlado. Isso porque o cabelo liso tende a ser menos volumoso, mais fácil de pentear e fácil de tratar e etc., porém, isso não quer dizer que o cabelo liso ou ondulado seja melhor do que o cacheado e crespo. Mesmo assim, nós crescemos achando que esse é o único modelo e regra, a sociedade enfiou em nossas cabeças a ideia de que o cabelo tem que estar "passado a ferro" como um terno novo e lavado e muitas, muitas químicas (tintas, alisamentos, relaxamentos, shampoos de controle, cremes e outros). Foram anos de lavagem cerebral em meninas e meninos, mulheres e homens.

   O problema dessa padronização capilar é que pessoas fazem o possível e o impossível para se encaixar nesse padrão que é irreal, incluindo se envenenar com produtos químicos todos os meses a fio, prejudicando a sua saúde de diversas formas, muitas vezes sem se dar conta dos riscos, sem conhecer produtos, marcas e componentes confiáveis. 

   Eu comecei a alisar o meu cabelo com chapinha e progressivas em torno dos 11 anos de idade. Antes disso, sofri diversas vezes todos os dias antes de ir pra escola porque assim como eu, minha mãe não sabia tratar do cabelo enrolado. A hora de pentear os cabelos era crucial, com muito choro e muita dor. Durante o dia inteiro em que eu tinha que ficar com o cabelo em um rabo de cavalo no topo da cabeça bem amarrado sofria com desconforto, dores de cabeça e muitos fios de cabelo quebrados; na escola e em casa de parentes foram diversas "brincadeiras" que nunca tiveram graça pra mim, mas tinha pra muita gente. Eu ouvi coisas como "Qual o pente que te penteia?", "Nossa, mas seu cabelo é muito cheio, prende ele!", "Você podia pedir pra sua mãe te levar em um salão pra alisar...", "Seu cabelo fica mais bonito com chapinha!", "Nossa! O que aconteceu?!", "Parece um leão!", entre outros comentários que vão de curiosidade a interesse e de "ajuda" a maldade.
  Foram anos mudando, já tive o cabelo de muitas cores, diversos cortes. Já passei por inúmeros procedimentos capilares, desde a escova e chapinha a "relaxamentos" que prometiam controlar o volume a progressivas e "inteligentes" (a famosa burra...) que juravam não ter "muita química", tudo isso buscando a minha própria identidade, conforto e aprovação social sem saber ou até mesmo sem me preocupar com a minha saúde física e psicológica.

   No ano passado decidi passar pela transição capilar aproveitando essa "onda" do No Poo e Low Poo (você pode ler sobre isso AQUI) para processar melhor a ideia e conhecer o meu próprio cabelo e saúde capilar (você pode ler sobre tipos de cabelos AQUI). Passei seis meses conhecendo o processo, descobrindo as curvas do meu cabelo, produtos específicos e produtos naturais para usar que melhor se adaptariam no meu tipo de cabelo, (re)descobrindo o meu verdadeiro cabelo e aprendendo a lidar não só com ele (que olha, é bem difícil viu?!), mas com a minha própria imagem diante do espelho 24 horas por dia, que é, particularmente, a parte mais complicada do processo da transição.

   Diferente de algumas pessoas não passei pelo bigshop (técnica que consiste em cortar toda a química do cabelo, deixando-o realmente bem curto para se livrar da química restante no cabelo), não julguei necessário já que eu estava quase totalmente sem química no meu cabelo. Passei os seis meses da transição empolgada, fazendo todo o cronograma e descobrindo que o meu cabelo era outro, totalmente diferente daquele com que lidei anos mais cedo. Ele tinha muitos cachos, era muito mais volumoso e descobri que eu realmente não sabia lidar com isso mesmo tendo tido bons resultados. Foi uma experiência incrível!

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   Mesmo com a empolgação e sucesso na transição eu ainda me incomodava bastante com meu cabelo e com todo o processo para que ele ficasse do jeito que eu gostasse, quando ficava né?! rs. Além da queda de cabelo ter crescido bastante nesses seis meses (ainda não sei o motivo). Tirei pouquíssimas fotos com cabelo cacheado porque apesar do sucesso eu ainda não me sentia totalmente segura ou bonita, eu saia com ele enrolado normalmente sem problemas, era somente me confrontar com o que eu via mesmo, ou seja, o problema era comigo.

   A empolgação foi bem maior do que o meu preparo psicológico para o que eu veria cara-a-cara no espelho. As vezes a gente vê em alguém que tenha ou esteja passando pelo processo da transição algo em comum, quantas vezes eu não vi alguém com o cabelo enrolado e pensei "Nossa, esse é o tipo do meu cabelo e vai ficar exatamente assim!", mas é aquela coisa: cada pessoa é única, por mais parecida que possa ser, é única, e as suas características mais ainda. Foi um processo bom, feliz, intenso e muito proveitoso, com uma série de benefícios e experiências. Mas não deu certo.

   A realidade é que nesse processo eu descobri que eu era aquilo que eu desejei ser, aquilo que eu construí todos esses anos, e mesmo que a minha identidade seja outra, o meu DNA grite que eu tenho x e y características, é essencial entender que todas as mudanças que optamos em fazer e fazemos ainda é o que somos e não descarta nada do que temos. Eu sou essas mudanças. Sou a mesma pessoa com cabelo enrolado ou liso, com o cabelo vermelho ou preto, não importa, eu sou principalmente todas essas mudanças. Isso me fez entender que além de aceitar toda a volta e mergulho no que eu era lá dentro eu precisava entender a me reconhecer de fato, a ouvir o que eu queria de fato e embora a realidade possa soar triste para muitas pessoas que incentivaram e estejam nesse processo de (re)descoberta é a verdade, a minha verdade: eu só me reconheço no espelho e me sinto bem, sendo influenciada ou não por milhões de propagandas e preconceitos, com o meu cabelo liso. Em alguns dias eu me olhava no espelho e chorava, não me sentia nada bem, não me sentia bonita.

   Algo que meu namorado disse e que levo sempre comigo é: "Você é linda de qualquer jeito, como quiser estar, liso ou enrolado. Eu aprendi muito com isso, vi que o cabelo enrolado e natural (que tinha preconceito) também é lindo, é muito bonito. Mas você tem que se sentir bem, se isso faz você chorar, se isso te deixa pra baixo, por mais empoderador que seja, não é pra você. Você foi forte por meses nesse processo e isso é o mais válido de tudo. Isso basta!".

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   O meu cabelo estava lindo, brilhoso, hidratado, cachos perfeitos, volume controlado. Eu tinha chegado onde queria, eu consegui ver como eu era, como ele era, e a experiência foi valiosa demais pra mim. Eu me senti linda, me senti livre e sempre penso nessa liberdade, mas todo cabelo, liso ou enrolado tem seus prós e contras, nenhum é mais fácil que o outro, ou são horas no salão alisando para tratar durante meses ou são horas lavando, secando e modelando e tratando durante meses. Essa é uma escolha particular de cada pessoa, a minha foi voltar a alisar. É como me sinto bem, poderosa, livre, mas pode não ser pra você.

   A melhor coisa desses pouco mais de seis meses foi a experiência, a dor de não me reconhecer como antes, de confrontar tudo o que passei, de entender a importância da minha história e da minha ancestralidade, principalmente do meu feminino que é a ligação com os cabelos e também a felicidade em ter conseguido chegar no meu objetivo, de enfrentar tudo isso, de ver o lado bom de tudo e de entender que as decisões são nossas e de ter, mesmo que ora desejando um e ora desejando outro, escolhido aquilo que me fazia bem e com a confiança de que a qualquer momento na minha vida eu posso fazer cumprir mais uma vez essa experiência, porque nada é definitivo e tudo está em constante mudança. É isso.

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12 Comentários

  1. Oie!
    Essa onda de transição capilar é ótima pra incentivar as pessoas a se livrarem das químicas e chapinha, mas também é ótimo pode escolher o que acha certo pro seu cabelo, né? Ninguém é obrigado a gostar dele do jeito natural e somos muito privilegiados por poder escolher o que fazer com eles, acho que a experiência foi ótima pra você ter certeza que queria ele liso e poder ver durante um tempinho como seria se ficasse natural. Ótima escolha :D

    Beijos
    http://tipsnconfessions.blogspot.com

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    1. É, não adianta sair de uma "ditadura" pra entrar em outra. O direito de escolha, em qualquer caso, tem que prevalecer sim! O mais importante de tudo é o como você se sente bem, não basta somente se aceitar, é preciso perceber uma série de questões.

      Eu optei por alisar justamente por isso, eu não estava bem, não me sentia confiante, e embora isso não aconteça com a grande maioria das meninas e meninos que resolveram aderir a transição, temos que entender que cada um é cada um, né?! Tô feliz assim! rs

      Obrigada pela visita Raquel! Beeeeeeeijo!

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  2. Eu amei sua postagem até porque estou iniciando minha transição mas estou iniciando porque quero ter o cabelo mais saudável e eu amo cabelo liso e faço muita escova e progressiva + escova geralmente detona o cabelo..pelo menos vou ter suas opções de uso: enrolado ou alisado rsrs

    Beijinhosss ;*
    Blog Resenhas da Pâm

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    1. Olá Pamela!

      Que bom que gostou, fico super feliz!!
      E faz sua bem, gatinha! Eu também iniciei a transição pra além de conhecer o tipo de cabelo que eu tenho, aprender a cuidar mais dele, deixar um pouco de lado o excesso de química e calor (chapinha, secador e etc) e foi a melhor coisa que fiz! A única coisa que realmente não me agradou 100% foi manter meu cabelo natural, ou seja, cacheado. Mesmo assim, atualmente eu cuido muito melhor do que antes. Foi uma experiência importantíssima, acredito que será ótimo pra você em muitos sentidos! :D

      O bom de ter essas duas opções, quando quer alisa, quando quer enrola, é que você está sempre diferente, isso me deixa bem animada haha, quando eu cansar do liso, go go pro cacheado e vice versa! rs

      Obrigada pela visita e boooooa transição pra você. Beeeijo!

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  3. Também passei pela transição capila, porém não foi por modinha Na verdade eu precisei porque meu cabelo tava ficando muito fraco com tantas químicas fale sobre isso lá no meu canal no YouTube que se chama Renata de Oliveira Silveira se puder dar uma passadinha lá.

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    1. Oi Re!

      O pessoal tá com essa mania de dizer que é modismo. Embora o "movimento" tenha crescido, e foi preciso que houvesse essa pequena revolução, é de fato uma chance de se conhecer melhor, de aprender a lidar com algo nunca comentado antes. Modismo ou não, foi e tá sendo super importante!!! Arrasa que a gente merece essa libertação!!! :D

      Obrigada pela visita! Beeeeeijo!

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  4. Que lindo e que sincero este relato... Acho súper importante termos esta liberdade de escolher o que a gente quiser pra nossa vida. Parabéns por toda coragem e sinta-se livre sempre para mudar o cabelo como e quantas vezes quiser <3

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    1. Pois é Alice, esse texto foi muito bom pra mim. Postei no dia 27 de abril, mas ele rondava a minha cabeça a meses!! Foi importante desabafar sobre isso porque ao mesmo tempo em que você se sente feliz em poder escolher e por entender finalmente que você pode a qualquer momento alisar e cachear, você se sente miseravelmente triste por ter passado por todo aquele processo de meses, sendo empoderada e criticada também e simplesmente ter "desistido", haha. Eu me julguei muito, me confrontei muito e hoje me sinto bem, esse texto tinha que nascer hahahaha.

      Obrigada inclusive pelo apoio de sempre durante a transição e não só por causa da transição, tu sabe, você é especial pra mim! Te adoro gatinha! BEEEEEEEIJO! <3

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  5. Eu amei sua postagem, lembrei da minha infância nos primeiros trechos. Eu fiquei anos só saindo de casa com cabelo preso. Era horrível, eu me sentia feia e desejava ter nascido branca para ter cabelo liso... Hoje estou em transição, na verdade eu estava em muita dúvida. Aí meu marido falou que era para eu testar, ver como meu cabelo vai ficar, se eu não gostar dos cachos é só alisar de novo *.* <3
    Tenho até receio de não me reconhecer tbm, mas sinto que preciso fazer este processo e até agora estou gostando. Ler teu post me deu mais força. Obrigada <3
    Charme-se

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    1. Oi Simone!

      Poxa, fico muito feliz com isso! Muito obrigada por ter lido essa pequeno desabafo!! Fico muito feliz em saber que essa minha reflexão possa ter te inspirado e dado mais força para sua aceitação e reconhecimento! Estou na torcida por você aqui! <3

      A infância é o maior problema pra quem tem cachos, a muito tempo foi, acredito que isso está mudando aos poucos e tende a mudar ainda mais!! GRAÇAS!!!!! Finalmente!!! rs
      Testa, se coloca no limite, mostre pra você a sua capacidade de mudar e de enfrentar tudo o que você passou antes, isso vai te fazer mais forte com pequenos comentários desagradáveis! Força!
      E sim, se você não se reconhecer, se não quiser mais os seu cachos lembre-se sempre que a qualquer momento da sua vida você estará disponível para uma nova mudança, seja alisar novamente ou depois de ter alisado, voltar a ter cachos! Sejamos todas camaleões! <3
      Beeeeijo!

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  6. Achei seu post maravilhoso! É difícil ver meninas que passam pela transição e depois voltam atrás. Estou cogitando entrar no processo, mas já pensei que no caminho posso vir querer a desistir de tudo e não acho que isso me faça menos emponderada. Muito pelo contrário! Ser emponderada é se achar linda do jeito que você é, independente se seu cabelo é liso ou cacheado!

    http://nataliasemh.com

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    1. Oi Natália, que bom que gostou!! <3

      Exatamente, o poder está em poder escolher e mudar a hora que quiser. O mais importante é se sentir bem, confiante e feliz. É uma experiência que vale a pena, por diversos motivos, são muitos aprendizados!

      Obrigada pela visita! Beeeeeijo!

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